Ir a casa de vó é sempre a mesma coisa. Desde quando tenho-me como gente, os móveis sempre estiveram no mesmo lugar e ela sempre com o mesmo jeito. Não estou reclamando. Graça divina é ter uma avó viva para ainda ouvir puxões de orelha bem dados.
Chegar em sua moradia é sentir-me como criança. O lugar de longas conversas é a cozinha, local onde a velha mesa parece pedir-me para tomar conta de sua quina com a mesma cadeira de couro que nunca sai debaixo da mesinha de telefone, que não faz jus ao nome já que para fazer uma ligação ir a sala devemos.
O armário azul nunca sairá daquela parede, afinal acho que nunca saiu. A mesa maior eternamente estará ao lado deste armário e o pote dos biscoitos que são servidos com o único e delicioso chá encontrar-se-á ao lado da lata de farinha, o mesmo não há de sair de cima do móvel de madeira azul e decadente.
Vire-se e aí estará o fogão com o pano de prato marrom e ambos em total sincronia com a pia e seu escorredor de pratos imortalizado.
Se dia algum o talher rebelde sair do sacro lugar que lhe foi dignado, o planeta há de sair de órbita, o dias hão de converterem-se em noite e o equilíbrio entre mar e firmamento desfeito será, pois a balança do mundo encontra-se apenas no cômodo que minha vó a toda hora encontrarei.
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